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TitleA História Do Brasil Em 50 Frases - Jaime Klintowitz
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De tanto proferi-las, ouvi-las e repeti-las, já temos todas essas frases
incorporadas ao nosso vocabulário cotidiano. Menos conhecido é quem
disse o quê e também o contexto em que cada sentença foi pronunciada.
Os autores deste fabulário brasileiro têm rostos, nomes, inspirações e
histórias. Neste livro, as frases célebres servem de ponto de partida para
contar, por um ângulo inesperado e revelador, a História de nosso país.
Num texto leve informativo e saboroso Jaime Klintowitz explica,
apresenta e convida o leitor a um passeio pelas veredas do Brasil. Um
passeio que perpassa a ironia de nossa linguagem, a diversidade de nossa
política, as maravilhas de nosso território e as descobertas de nossa

literatura. No caminho, o autor oferece encontros com Euclides da
Cunha, Fernando Collor de Melo, Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek,
Dom Pedro I, Pelé, Nelson Rodrigues, Getúlio Vargas, Lula o e muitos
outros personagens que contribuíram para construir o mosaico da
história brasileira.

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morreu pouco depois.
O levante foi finalmente contido pela ação conjunta da polícia, do

exército e da marinha. Saldo da Revolta da Vacina: 30 mortos, 110 feridos
e 945 presos, entre eles o senador Lauro Sodré, que passou dez meses
num navio-prisão. Oswaldo Cruz foi demitido, e a vacinação obrigatória,
suspensa. O desastroso resultado do obscurantismo é que um novo surto

de varíola eclodiu em 1908, com 10 mil casos.
Em 1959, quando a Organização Mundial de Saúde lançou uma

campanha internacional para erradicar a varíola, a transmissão da
doença já desaparecera na Europa e na América do Norte. No final dos
anos 1960, em um imenso esforço de vacinação, o Brasil conseguiu
imunizar 88% da população. A saúde pública do país, contudo,
continuava a ser má notícia. Em 1970, um surto de varíola atingiu o
bairro de Olaria, no Rio de Janeiro, com vinte doentes. O último infectado,
detectado em 19 de abril, foi também o derradeiro caso de varíola no

continente. Em 1980, ela foi declarada extinta em todo o planeta.Havia então se passado mais de meio século desde seu discurso famoso
e Miguel Pereira continuava atual: o Brasil ainda era um imenso hospital.

120 ‘Simone Petraglia Kropf; Nísia Trindade Lima,
Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, Expansão, 20040-361, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

121 Miguel Pereira participara da comissão enviada pela Academia Nacional de Medicina a Minas
Gerais. O sertão mineiro descobrira legiões “de inválidos, exangues, esgotados pela ancilostomíase e
pela malária; estropiados e arrasados pela moléstia de Chagas; corroídos pela sífilis e pela lepra;
devastados pelo alcoolismo, chupados pela fome, ignorantes, abandonados, sem ideal e sem letras”

( , 11 out. 1916).

122 A primeira vacina contra a varíola foi desenvolvida pelo médico inglês Edward Jenner, em 1792.
O Brasil não ficou indiferente a esse avanço científico. Um Instituto Vacínico existiu no Rio de Janeiro
entre 1846 e 1866. O Instituto Bacteriológico foi fundado em São Paulo em 1892 e, dois anos depois,
surgiu o Instituto Vacínico Municipal em Manguinhos, no Rio, depois chamado de Instituto
Soroterápico Nacional e hoje Fundação Oswaldo Cruz, nome de seu diretor mais famoso.

123 Uma vítima de ruidosa campanha de descrédito e difamação foi o médico Carlos Chagas,
descobridor do protozoário e da , a doença de Chagas.
O chefe do chamado grupo anti-Chagas era o médico baiano Afrânio Peixoto, membro da Academia
Brasileira de Letras e um dos pais da psiquiatria brasileira. Afrânio pretendia dirigir o recém-criado
Departamento de Saúde Pública e jamais aceitou a nomeação de Chagas para o cargo. Em 1922, ele
exigiu da Academia Nacional de Medicina a formação de uma comissão para investigar as acusações
que fazia ao sanitarista (a de que a doença não tinha relevância epidemiológica e de que Chagas não
seria seu descobridor, cabendo o título a Oswaldo Cruz). O relatório final da comissão, apresentado
em 6 de dezembro de 1923, foi favorável a Carlos Chagas.

124 Dilene Raimundo do Nascimento e Matheus Alves Duarte da Silva, Revista de História da

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Biblioteca Nacional, 8 de abril de 2011.

125 João do Rio era o pseudônimo do escritor Paulo Barreto (1881-1921). O trecho está no seu livro
de crônicas , de 1908, citado por Dilene Raimundo do Nascimento e
Matheus Alves Duarte da Silva, Revista de História da Biblioteca Nacional, 8 de abril de 2011.

126 Moacyr Scliar, , História Viva, Duetto Editorial.

127 Carlos Chagas, , Editora Record, 2001.

128 Medidas tomadas pelo governo para modernizar usos e costumes raramente eram aceitas
pacificamente. Normas hoje integradas ao dia a dia nacional, como o sistema métrico, o registro civil
de nascimento e óbitos e o recrutamento obrigatório, foram recebidas com quebra-quebras e
revoltas populares em vários pontos do país.

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Operação Uruguai – não convenceu ninguém. A deposição do presidente
virou causa nacional. Estudantes saíam às ruas em manifestações
coloridas – os caras-pintadas −, fornecendo belas imagens para os
telejornais. Em 14 de agosto de 1992, num espasmo de desespero, Collor
foi à televisão convocar manifestações a seu favor:

“Que saiam no próximo domingo de casa com alguma peça de roupa

com uma das cores da nossa bandeira! Que exponham nas janelas! Que
exponham nas suas janelas toalhas, panos, o que tiver nas cores da nossa
bandeira. Porque assim, no próximo domingo, nós estaremos mostrando
onde está a verdadeira maioria”, exortou o presidente.

O homem que só tinha uma bala havia dado um tiro no pé. As ruas de
dez capitais se encheram de manifestantes trajando roupas pretas. O
presidente estava sozinho. É de duvidar que ainda lhe servissem um
cafezinho no Palácio do Planalto. Seu último ato como presidente foi
renunciar ao cargo, em 29 de dezembro de 1992. A penada veio tarde

demais para evitar a vergonha de ser colocado para fora do Planalto.Reunido naquele dia, em clima de exaltação patriótica, o Congresso votou
o do presidente por corrupção.266

Collor perdeu o mandato e teve os direitos políticos cassados por oito
anos.267 O Brasil sentiu-se de alma lavada. Por um momento pareceu que
o país atingira a maturidade democrática e nunca mais um governante
ousaria roubar o dinheiro do povo brasileiro.

A ilusão durou pouco.

258 O Plano Collor ressuscitou a denominação de “cruzeiro” para a moeda nacional. O nome já

circulara entre 1942 e 1967, depois foi substituído por “cruzeiro novo” (1967-1970), “cruzeiro”
novamente (1970-1986) e, por fim “cruzado” (1986-1990). O cruzeiro deu vez ao real em 1994..

259 A metodologia usada na fixação do teto de 50.000 cruzeiros foi a de escrever vários valores em
pedacinhos de papel e sortear um deles durante a festa de posse de Collor. Pelo câmbio oficial em 9
de março de 1990, equivalia a 1.380 dólares. O depoimento da ministra a respeito do episódio está
em , biografia autorizada escrita por Fernando Sabino. Publicado pela Record, o
livro vendeu 240.000 exemplares em 1991.

260 Em crise depressiva por causa da derrota nas eleições de 1989, Luiz Inácio Lula da Silva passou
um mês confinado na casa do candidato a vice-presidente, Hélio Bicudo. O depoimento de Bicudo
pode ser visto no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=MKhSKE3FkDA.

261 Collor privatizou algumas estatais, entre elas as da siderurgia que davam brutal prejuízo aos
cofres públicos, e extinguiu autarquias arcaicas, como o Instituto Brasileiro do Café. Também sumiu
com excentricidades perdulárias, tipo a Embrafilme. A modernização do Estado e da economia não
perturbava apenas a esquerda. A abertura de brechas no protecionismo punha muitos empresários
diante do desafio inédito da concorrência global. A indústria automobilística, por exemplo, foi

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forçada a produzir veículos melhores que as habituais “carroças” (a definição foi um feliz achado de
Collor). Os políticos, por sua vez, incomodavam-se com o sumiço de tantas sinecuras e cabides de
empregos.

262 Luís Otávio da Mota Veiga acusou a dupla de pressionar para que a Petrobras fornecesse a Vasp
combustível a preços camaradas. Privatizada no início da década de 1990, a companhia aérea fora
comprada por um empresário de Brasília, Wagner Canhedo. A Vasp faliu em 2005.

263 O projeto de Fernando Collor e PC Farias era montar uma rede de comunicações paralela em
Alagoas, da qual faria parte , uma dúzia de estações de rádio e talvez uma de
televisão.

264 Eduardo Oinegue, , 19 de Fevereiro, 1992, páginas 24 e 25.

265 “O PC é o testa de ferro do Fernando”, , 27 de maio, 1992, páginas 18 a 22.

266 Cláudio Humberto, porta-voz do Governo Collor, conta em
(Geração Editorial, 1993 – 399 páginas) que o presidente e seus aliados ofereciam um milhão

de dólares por voto contra a abertura do processo de , em setembro. Dois deputados
paranaenses aceitaram o dinheiro, mas traíram o compromisso na hora de votar em plenário..

267 Depois de tentar sem sucesso se eleger governador em 2002, Fernando Collor de Mello voltou
ao Congresso Nacional em 2007, eleito senador por Alagoas. Em 2010, tentou novamente ser
governador. Foi o terceiro mais votado.

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